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A estagnação ou cortes no valor dos benefícios sociais e previdenciários poderão causar uma retração severa à atividade econômica em municípios do interior do Brasil. A constatação é de um levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Universidade de São Paulo (USP), lançado nesta semana.

Segundo o estudo da FEA-USP, as aposentadorias, o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) têm peso significativo na economia dessas cidades. Eles chegam a representar quase metade do orçamento das famílias mais pobres.

Como o valor recebido é usado quase integralmente para itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local. Isso garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa, destaca a economista Luiza Nassif, co-diretora do Made-USP.

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De acordo com o levantamento, dos 5.569 municípios brasileiros, cerca de 4 mil estão fora das regiões metropolitanas. Nessas cidades, o peso das transferências públicas chega a ser o dobro em relação aos grandes centros urbanos.

No Ceará, por exemplo, os benefícios respondem por 22% da renda agregada da capital e região metropolitana. Já nas cidades do interior, esse número salta para 40%.

Impactos futuros

O estudo projetou os efeitos econômicos da evolução da renda dessas transferências para os próximos três anos. A pesquisa comparou cenários de crescimento real com períodos de congelamento total.

O levantamento mostra que, sem os reajustes, a renda agregada do interior do país sofreria uma retração severa. A queda ficaria entre 6,8% e 10,8% abaixo do patamar com a valorização real.

Isso geraria uma reação em cadeia na atividade econômica que atinge inclusive as famílias que não dependem do socorro público, avalia a economista do Made-USP.

Os cenários mais críticos ocorreriam no interior do Rio Grande do Norte, do Amapá e do Piauí. Nesses locais, a renda total cairia entre 17% e 18% sem o ritmo atual de aumento.

Amazonas, Sergipe e Pernambuco teriam perda na casa dos 15%. Outros estados também enfrentariam quedas expressivas em suas economias locais.

Os efeitos na pobreza

O levantamento destaca que, além dos impactos econômicos, os repasses desempenham um papel decisivo no combate à pobreza nas cidades do interior.

Para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família diretamente para a vulnerabilidade, afirma Nassif. Para rendimentos de até 1,5 salário mínimo, os auxílios podem chegar a 50% do total.

Simulações indicam que a ausência de ganhos reais teria empurrado cerca de 2,7 milhões de pessoas para a pobreza fora das capitais. Desse total, 2,4 milhões iriam para a extrema pobreza.

Em números absolutos, as maiores altas ocorreriam na Bahia, em São Paulo e em Minas Gerais. Maranhão, Pará e Ceará também registrariam marcas elevadas.

Manter a valorização real da previdência e dos programas de transferência é a garantia mínima de dignidade para as famílias. É também a sobrevivência para o comércio no Brasil profundo, conclui a pesquisa.

FONTE/CRÉDITOS: Bruno Bocchni - Repórter da Agência Brasil